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Algumas reflexões de uma madrasta que se tornou mãe.

Algumas reflexões de uma madrasta que se tornou mãe.

 

 

Quando eu me tornei madrasta não ganhei felicitações. Eu ganhei reações estranhas e alguns conselhos que por óbvio não segui. Mas assumo a minha parcela de culpa nesta questão.

Quando contei as pessoas próximas a mim que seria madrasta não fui feliz na fala.  Eu tinha medo, dúvidas e sim, preconceito, afinal quem nunca ouviu a frase: “homem com filho é problema”? 

Eu literalmente falava em tom de derrota.   Eu lembro bem como eu contava aos meus amigos e familiares sobre a minha relação com Iam:  “Mas só tem um problema, ele tem um filho”.

Que ignorância minha, no máximo Lorenzo seria uma incógnita, pois ainda teria o momento de conhecê-lo e estabelecer a nossa relação.  Meu medo e preconceito foram substitutos pelo amor e construção de uma relação verdadeira com o Lorenzo.

Quando contei as pessoas sobre a minha gravidez, recebi tantas felicitações que fiquei tonta com tanto carinho.  As pessoas ao nosso redor não sabiam que desejávamos um filho, mas foram incrivelmente calorosas com a notícia, que por sinal era contada cheia de amor e entusiasmo.

No meu papel de madrasta eu jamais recebi tanto afeto assim. O Romeo é um bebê que eu sonhei e, o Lorenzo não foi desejado por mim.  Mas vejam bem, “não desejar” não significa “não amar”.

O desconhecido nos assusta, deixa dúvidas e inseguranças, e o Lorenzo era o meu desconhecido. Por isso, acredito que o meu comportamento inicial sobre ele é aceitável, mas não vou negar que hoje eu me arrependo. 

Bom, eu só fui capaz de enxergar essas diferenças de tratamento depois que engravidei. E digo com segurança, ser mãe me deu alguns “pontos de vantagem” no jogo da maternidade, enquanto o ser madrasta “me tirou pontos” ... você já começa o jogo perdendo.

Mas quem foi que disse que a maternidade é um jogo? Se é um jogo eu não sei, mas existe muita comparação, cobrança e julgamentos que parecem nos colocar numa competição. 

E sabem porquê?

Porque somos mulheres. E não importa qual papel você desempenhe, sempre vai existir o júri popular de plantão que falará “que o filho de fulano é maior, mais gordinho”... “que a madrasta é apenas a mulher do pai e nada mais” ... e por aí vai...

Como hoje ocupo dois universos do maternar, tentei ao máximo entender as armadilhas que rondam a Bruna mãe e Bruna madrasta, e aqui estão algumas:

Ser mãe explora toda a minha força, eu sou constantemente posta no meu limite físico e muitas vezes emocional para não falhar com o Romeo. Privação do sono, as dores/queimação inicial da amamentação, o choro dele que eu não consigo decifrar...

A minha mente falha várias vezes ao dia, e como todo mortal tenho meus dias de estresse e de muito choro. Parece que ser mãe é desconhecer limites. 

Já a Bruna madrasta sofreu muito com a pressão para desistir do maternar, como se não houvesse nada que eu pudesse fazer pelo Lorenzo. 

Eu não faço ideia de como foram os dois primeiros anos de vida do Lorenzo. Não acompanhei ele recém-nascido, não vi seus primeiros passos, nem ouvi a sua primeira palavra.  Mas a partir do momento que entrei na vida dele, e ele na minha, passamos a construir a nossa história, e eu lembro com perfeição do dia que conheci o Lorenzo e do medo que eu tinha dele não gostar de mim.

Percebam a diferença, o medo inicial da mãe é de falhar com filho, pois já partirmos no pressuposto que existe amor nesta relação.  Já o medo da madrasta é de não ser amada, ou melhor ainda, de não conseguir estabelecer uma relação com o enteado.  Ela precisa conquistar essa criança primeiro para só depois adquiri o medo por falhar em seu maternar.

Entendem agora a questão dos pontos na maternidade? O amor de mãe permite transbordar. O da madrasta não.

Se um transborda na dor, no amor e nos medos, o outro é constantemente sufocado. A madrasta aprende a ressignificar o amor.

Eu lembro o quanto ficava desconfortável em eventos que envolviam o Lorenzo... eu não conseguia me sentir parte daquele mundo, mesmo recebendo todo amor do pequeno.

Com o tempo passei a ver os eventos com outros olhos... ele poderia não cantar ou dançar uma música para mim, mas era ele que estava lá se apresentando e por isso o evento se tornava especial. 

Ser mãe e madrasta são formas de maternar diferentes e que merecem além de respeito muito acolhimento. Cada uma possui seus próprios medos, desafios e alegrias...

E mais uma vez, mães e madrastas são julgadas diariamente e sabem porquê? 

Porque somos mulheres. 

Nos últimos anos temos acompanhado esperançosos a união do feminino. São mulheres que se abraçam no trabalho, que sentem a dor da outra, e melhor ainda, que deixaram de julgar e condenar umas as outras. 

Nós mulheres começamos a nos olhar com carinho. Chamam esse movimento de sororidade. 

E aqui temos um problema.

Quando me tornei madrasta eu não fui acolhida e, para falar a verdade eu fui diversa vezes repelida ou ignorada por outras mulheres... 

Então quem merece a sororidade? 

Vivemos tantos anos sobre o estigma da madrasta impostora, destruidora de lares e, a mais recente que ouvi “passadora de pano pra macho escroto”, que é difícil ter um olhar empático com a madrasta, e coloca-la no seio familiar. 

Esses dias me peguei pensando sobre a cultura do cancelamento que vivemos e achei por instante que ela poderia ser um aliado. São tantos pensamentos sendo desconstruídos que os nossos estereótipos poderiam ser cancelados né?

Já imaginaram uma nova visão de madrasta que finalmente permite a gente ser as protagonistas das falas? Um mundo em que falar que é madrasta não cause estranhamento e não gere receio na gente?

Um verdadeiro sonho de madrasta que vira princesa né moças? Mas infelizmente é mais fácil cancelar a madrasta do que tentar olhar o que podemos ser. E vocês já perceberam que parte deste cancelamento vem justamente de outras mulheres?

Essa exclusão social da madrasta faz com que a gente acabe se fechando em nosso mundo. Digo, apenas uma madrasta é capaz de abraçar outra madrasta. A gente se reconhece pelas inseguranças, medos e por nutrir um amor que precisa de limites para não ser chamada de Nazaré (rindo de nervoso). 

Ser mãe e madrasta só me mostrou o quanto é difícil ser mulher e como é fácil a gente cair nos julgamentos alheios. E o mais curioso em ser mãe e madrasta é perceber que no final somos apenas mulheres compartilhando os desafios da vida conjugal (ou não) e familiar.

No final mesmo... Somos iguais, mas separadas pela barreira invisível das críticas e julgamentos. 

 

Escrevi esse texto no meu IG @comamormadrasta, que no momento está desativado. Resolvi repostar aqui, pois sigo ele como mantra para equilibrar meus dois universos do maternar. 

 

Somos Madrastas
Bruna Pelegrino
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Madrasta do Lorenzo e mãe do Romeo O que eu sinto, eu escrevo. Escrevo e me encontro.

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